Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica

Homenagem aos Professores

Prof. Milton Ferreira de Souza

foto-milton

Milton Ferreira de Souza, nascido em 1932 no Rio de Janeiro, foi uma das figuras mais marcantes da ciência brasileira nas últimas décadas. Cientista, pesquisador, professor e empreendedor, construiu uma trajetória singular, capaz de unir excelência acadêmica, visão tecnológica e compromisso social. Formado em Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1953, e doutor em Física pela Universidade de São Paulo, em 1968, tornou-se mais tarde Professor Emérito do Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP). Seu legado se espalha por instituições, laboratórios, empresas e projetos educacionais que ajudaram a transformar o cenário científico e tecnológico do país.

Na área acadêmica, Milton foi um dos pioneiros no Brasil em física do estado sólido e ciência dos materiais. Teve papel decisivo na criação e consolidação do Departamento de Física da Universidade Federal do Ceará, onde estruturou laboratórios e estimulou a formação de pesquisadores em uma região que ainda dava seus primeiros passos na pesquisa científica de alto nível. Foi também responsável por enviar alguns dos primeiros alunos do Nordeste para realizar doutorado no exterior, numa aposta ousada na internacionalização como caminho para a formação de lideranças científicas. Mais tarde, em São Carlos, participou da idealização do curso de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos, o primeiro da América Latina.

Na USP de São Carlos, exerceu funções de liderança e ajudou a moldar a expansão institucional da pesquisa. Chefiou departamentos, dirigiu o então Instituto de Física e Química e viabilizou a construção de prédios fundamentais para o crescimento das atividades científicas. Também foi responsável por formar gerações de pesquisadores, orientando mais de uma centena de estudantes de iniciação científica e dezenas de pós-graduandos. Seu incentivo constante à independência intelectual e ao contato com os melhores centros internacionais ajudou a consolidar grupos de pesquisa de reconhecimento mundial, como os de Crescimento de Cristais e Óptica.

A experiência internacional teve papel central em sua formação e em sua visão de futuro para a ciência brasileira. Entre 1960 e 1961, atuou como professor e cientista visitante na Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, com bolsa Fulbright. Ali trabalhou com propriedades elétricas e termoeletricidade de cristais iônicos, em um ambiente científico de ponta, próximo ao laboratório de John Bardeen, duas vezes laureado com o Prêmio Nobel. A passagem pelos Estados Unidos trouxe frutos concretos: garantiu financiamento da National Science Foundation para a montagem de um laboratório no Brasil e abriu caminho para que seus alunos também chegassem a universidades estrangeiras. Mais tarde, entre 1970 e 1971, realizou pós-doutorado na Universidade de Utah, novamente como bolsista Fulbright, aprofundando estudos sobre materiais dielétricos e propriedades ópticas de cristais iônicos em colaboração com Fritz Luty. Essas vivências reforçaram sua convicção de que a ciência brasileira precisava dialogar com o mundo e formar pesquisadores com visão internacional.

Mas Milton Ferreira de Souza foi além da universidade. Em uma época em que a aproximação entre academia e indústria ainda era vista com desconfiança, defendeu a ideia de que o conhecimento científico deveria gerar riqueza, produtos e impacto concreto para a sociedade. Essa visão o levou a ser um dos idealizadores e o primeiro diretor-presidente da Fundação Parque de Alta Tecnologia de São Carlos, o ParqTec, criado em 1984 com apoio do CNPq, da FIESP e da Prefeitura de São Carlos. O ParqTec foi uma iniciativa pioneira no país, funcionando como uma das primeiras incubadoras de empresas de base tecnológica da América Latina e ajudando a transformar São Carlos em um dos principais polos de inovação do Brasil.

Sob sua influência, surgiram empresas que se tornariam referências no setor tecnológico, como a Opto Eletrônica, a Engecer, a Cerauto e a Inovamat. Milton também esteve diretamente envolvido no desenvolvimento de produtos e patentes, atuando em temas que iam de materiais inorgânicos à recuperação de rejeitos agrícolas, como a sílica extraída da casca de arroz. Trabalhou ainda na formulação de novos usos para o fosfogesso, buscando soluções sustentáveis e de baixo custo para a construção de habitações populares. Sua atuação empresarial nunca esteve dissociada de seu compromisso público: para ele, inovar era também encontrar respostas concretas para problemas nacionais.

Essa capacidade de criar estruturas duradouras também se refletiu na FAFQ, a Fundação de Apoio à Física e à Química, instituída em 1982 em São Carlos. Milton liderou a reunião que formalizou sua criação e foi eleito por unanimidade como o primeiro diretor-presidente da fundação. A FAFQ nasceu com a missão de apoiar universidades e instituições públicas e privadas em programas de desenvolvimento tecnológico ligados ao Instituto de Física e Química de São Carlos, promovendo cursos, simpósios, publicações técnicas, bolsas de estudo e estágios. Mais uma vez, Milton demonstrava rara habilidade para transformar ideias em instituições concretas.

Sua trajetória, no entanto, não se limitou à ciência, à gestão e ao empreendedorismo. Vindo de origem humilde, nascido na região onde hoje está o Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, Milton jamais se afastou da convicção de que a educação era uma ferramenta essencial de transformação social. Na década de 1960, quando estava no Ceará, foi preso e demitido pelo regime militar por participar de um projeto da Sudene que buscava inserir jovens carentes na universidade, iniciativa considerada subversiva naquele contexto autoritário. O episódio revela a dimensão de seu compromisso com a inclusão e com a redução das desigualdades.

Em São Carlos, essa mesma vocação social se traduziu em projetos pioneiros. Em 1981, criou o Centro de Divulgação Científica e Cultural da USP, o CDCC, que se tornou referência nacional em popularização da ciência e formação de jovens. Mais tarde, ao lado de outros professores, idealizou o Projeto Acesso, destinado a identificar estudantes talentosos da rede pública, financiar integralmente seus estudos em cursinhos pré-vestibulares de excelência e oferecer acompanhamento contínuo para que pudessem ingressar nas carreiras de exatas da USP. Era a mesma lógica que guiava toda a sua vida: abrir portas, formar pessoas e construir oportunidades reais.

Descrito por colegas como uma “força da natureza” e um verdadeiro “trator do bem”, Milton Ferreira de Souza deixou marcas profundas em diferentes frentes. Seu legado permanece vivo nas instituições que ajudou a criar, nas empresas que nasceram de sua visão pioneira, nos laboratórios que estruturou, nos pesquisadores que formou e nos jovens que tiveram seu destino transformado por projetos educacionais que idealizou. Sua trajetória é a de um homem que não separava ciência de desenvolvimento, nem conhecimento de responsabilidade social. Ao contrário, fez dessas dimensões uma única obra, coerente e transformadora, que continua a influenciar a ciência brasileira até hoje.

Playlist de vídeos - Prof. Milton Ferreira de Souza